quando eu for velha eu serei feliz

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Quem aí tem uma blusa roxa? E um chapéu vermelho? Ou um chapéu qualquer que não seja boné ou chapéu de praia? Vocês já devem ter ouvido falar do poema de Jenny Joseph “warning” (aviso – tradução livre), em que ela lista as belezas de se ter uma idade, arg, digamos, avançada… de ser velho… ou jovem a mais tempo, como diz um amigo meu.

Warning*

When I am an old woman I shall wear purple
With a red hat which doesn’t go, and doesn’t suit me.
And I shall spend my pension on brandy and summer gloves
And satin sandals, and say we’ve no money for butter.**
I shall sit down on the pavement when I’m tired
And gobble up samples in shops and press alarm bells
And run my stick along the public railings
And make up for the sobriety of my youth.
I shall go out in my slippers in the rain
And pick flowers in other people’s gardens
And learn to spit.

You can wear terrible shirts and grow more fat
And eat three pounds of sausages at a go
Or only bread and pickle for a week
And hoard pens and pencils and beermats and things in boxes.

But now we must have clothes that keep us dry
And pay our rent and not swear in the street
And set a good example for the children.
We must have friends to dinner and read the papers.

But maybe I ought to practice a little now?
So people who know me are not too shocked and surprised
When suddenly I am old, and start to wear purple.


Aviso (tradução livre)

Quando eu for velha eu vou usar roxo

Com um chapéu vermelho que não combina com a roupa nem comigo.

E eu vou gastar meu dinheiro de aposentadoria em conhaques e luvas de verão

E sandálias de cetim, e dizer que não temos dinheiro para comprar manteiga.**

Eu vou sentar na rua quando estiver cansada

E me empanturrar de amostras grátis em lojas e apertar campainhas

E fazer barulho com minha bengala no corrimão

E compensar pela sobriedade da minha juventude.

Eu vou sair de chinelo na chuva

E colher flores nos jardins alheios

E aprender a cuspir.

Você pode vestir saias terríveis e ficar mais gorda

E comer um kilo de salsicha de uma só vez

Ou somente pão e picles por uma semana

E acumular canetas e lápis e descansos de copo e outras coisas em caixas.

Mas agora nós devemos ter roupas que nos mantém secas

E pagar nosso aluguel e não xingar na rua

E dar um bom exemplo para as crianças

Nós devemos receber amigos para o jantar e ler o jornal.

Jenny+Joseph+portrait+(Norman+McBeath)Mas talvez eu deva começar a praticar um pouco agora?

Para que as pessoas que me conhecem não fiquem tão chocadas e surpresas

Quando de repente eu ficar velha, e começar a usar roxo.

Jenny Joseph


O poema é lindo e nos inspira a valorizar as pequenas coisas da vida, as besteiras e bobeiras que queremos fazer e muitas vezes não fazemos por medo do que vão pensar os outros. Os outros. As crianças, a sociedade, os colegas de trabalho, os vizinhos, o seu Manoel da padaria. Vivemos com esse bigbrother nos observando e nos julgando constantemente, derrubando um fardo de responsabilidade, de ser corretos, de ser exemplo, sempre, até quando vamos ao banheiro! Mãe é que sabe bem do que eu tô falando. Antigamente você ia ao banheiro e fechava a porta e ninguém falava com você enquanto você estava lá. Nem você falava com ninguém. Você não tinha nem que avisar ninguém, você simplesmente ia. Ponto. Era um momento mágico e pouco valorizado que você tinha, onde você podia ficar tranquilamente a sós consigo mesma. Até você ter um bebê. Agora ir ao banheiro é uma tarefa extremamente complexa e pública, pra não dizer compartilhada com todos na casa. “fica aqui com o bebê só um pouquinho enquanto eu vou ao banheiro por favor?” e voa uma mãe desesperada, que já extraiu toda a água possível daquela urina presa faz umas 5 horas porque é claro que você não pode ir ao banheiro enquanto o bebê tá com fome, depois o bebê precisa trocar a fralda, e já que vai trocar vamos logo dar um banho, e depois ele precisa tirar uma soneca, e quando ele dorme você se lembra que ainda não comeu nada hoje. E Deus me livre e guarde de você estar no banheiro e ouvir um choro. Todo movimento peristáltico, por mais involuntário que ele seja, é automaticamente travado e dispara novamente uma mãe voando pela casa abotoando as calças pra ver o que aconteceu. Se você estiver sozinha com o bebê então, ahh esquece. Você simplesmente não toma banho e se precisar fazer não agüentar segurar o número um ou número dois, será com a porta aberta e um bebê conforto na porta.

Porque, gente? Porque nós não nos permitimos? Porque depois da maternidade perdemos o direito de ir banheiro? O direito de ser gente? O direito de fazer o que quisermos fazer? O direito de ser feliz? Parece contraditório pois a maternidade é normalmente a maior fonte de felicidade de uma mulher mas hoje em dia há tanta pressão pra ser a mãe perfeita que essa felicidade vem com um manual de “como se portar”. Pode ser só eu mas não dá pra ser muito feliz assim…

E o pior é que essa pressão toda somos nós mesmos que colocamos! As crianças não se importam muito se você vai ou não ao banheiro, quiçá o seu Manoel da padaria! Mas nós nos importamos muito, ora bolas! Sentimos na pele, ou melhor, na barriga os efeitos disso!

E o pior é que nos sentimos tão pressionadas por que obviamente queremos dar um bom exemplo para as crianças, como tia Jenny mesmo diz no seu poema, queremos o seu bem estar, sua segurança, sua felicidade. Mas esquecemos que tudo isso está diretamente ligado ao nosso bem estar, à nossa segurança, à nossa felicidade. O melhor exemplo que podemos dar para nossos filhos é o de uma mãe feliz, em equilíbrio, em paz consigo mesma, com seu corpo, com seu trabalho, com sua vida. Uma mãe que coloca a roupa que quer colocar pra sair, que pisa em poças de lama de vez em quando (pense se eles não gostam disso?!), que come algodão doce e dorme sem escovar os dentes. Porque nem só de brócolis vive o homem. Sim é importante comer bem, sim é importante trabalhar e ganhar dinheiro, sim é importante saber se portar na rua. Mas também é importante ser feliz. Você não acha?

E não precisamos ficar velhas pra fazer isso. Não devemos deixar pra fazer isso depois, quando nós não formos mais a principal referência dos nossos filhos. Depois, quando eles tiverem ido pra adolescência, pra faculdade, pra vida, eles não vão prestar mais tanta atenção no que dizemos, no que fazemos. Agora é a hora. Agora é o momento. Comece a ser feliz já! Não deixe pra amanhã! E aproveita e presta atenção na cara de felicidade que seu filho vai te dar quando você estiver feliz do lado dele! Quando vocês saírem pro supermercado juntos, vestindo roxo…

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*descobri que tem uma sociedade das mulheres de chapéu vermelho (red hat society) com várias filiais espalhadas pelo mundo, inspirada nesse poema, inspirando mulheres a fazer o que der na telha, mas com muito estilo vestindo roxo e chapéus vermelhos!
**não sabia bem como traduzir isso, e descobri que o “não temos dinheiro pra comprar manteiga” vem de uma expressão francesa On ne peut pas avoir le beurre et l’argent du beurre. Não se pode ter a manteiga e o dinheiro pra manteiga. Achei interessante esse pensamento de que não se pode ter tudo na vida, pelo menos não tudo ao mesmo tempo. E normalmente acabamos optando por ter dinheiro e não manteiga (as coisas boas da vida). Daí no poema ela ter optado por ter manteiga,e não dinheiro. Enfim, resolvi deixar a tradução literal. Espero que tenha dado pra entender…