O que é isso?

brincar - einstein

Sabe aquele povo tralheiro? Aquelas pessoas que tem em suas casas pilhas e pilhas de coisas que parecem inúteis mas que se você perguntar eles vão dar mil e um motivos pelos quais aquela caixa de ovo é absolutamente essencial em suas vidas? Tem até programa de TV, “acumuladores”, não é? Pois então. Sou eu.

Hahaha, brincadeira, não é pra tanto, mas que eu tenho uma pilha de caixa de ovo vazia guardada na minha cozinha eu tenho. “Por quê?” você vai se perguntar. Não, não é transtorno emocional nem distúrbio psicológico. “é pras crianças!” direi com orgulho! “isso aí pode dar uma brincadeira…”

E gente, rola muita brincadeira assim lá em casa. Pintando caixa de ovo, recortando embalagem de leite, desenhando em caixa de papelão, usando latinha de leite moça pra fazer uma bateria heavy metal,e por aí vai. O trem ia pro lixo mesmo, porque não aproveitar pra brincar um pouco antes? Nos bons e velhos tempos as crianças brincavam com manga verde, enfiando palitinhos pra fazer animais pro zoológico imaginário.

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Ou quem aqui nunca pendurou um lençol em duas cadeiras e fez uma tenda? Ou fingiu que debaixo da mesa de jantar era um castelo ou um esconderijo secreto ou a caverna do indiana Jones?  (mesmo depois de adulto ao fazer uma mudança você fica doido pra montar um castelo de caixas hã? Fala a verdade…)maxresdefaultfe4eb959c7898cc1a025a0ce9daa899d

Ok, não precisa admitir…

Mas voltando ao assunto, a gente sabe que a imaginação da criança é muito fértil e uma colher de pau pode assumir mil personalidades, e dá até raiva quando você dá um presente caro pro menino e ele se interessa mais pela embalagem que pelo brinquedo… é ou não é?

Mas isso é porque nossa imaginação é sem limites e podemos criar qualquer coisa do nada (como Deus), basta imaginar. Digo nossa porque todos fomos um dia crianças. E em algum momento no processo de virarmos adultos nós aprendemos que certas coisas não devem ser feitas, que quando recebemos um presente, o presente mesmo está lá dentro da embalagem, no máximo dizemos que o papel é bonito mas depois ele vai pro lixo, ele não vira material pra recorte e colagem ou a capa de uma agenda ou uma bola de futebol. Acho que a pergunta mais importante na vida de uma criança é a que Davi me fez a uns dias atrás. Estávamos limpando a cozinha e eu coloquei várias coisas na pia e ele:

-o que é isso?

– isso vai pro lixo, filho (e coloquei na lixeira, fechando o saco)

-onde você vai?

-vou levar o lixo na lixeira, filho

-e pra onde vai o lixo?

-vai pro caminhão de lixo, filho

-e pra onde vai o caminhão?

Já deu pra entender né? Nesse circuito de perguntas típicas de um menino curioso e saudável de 4 anos de idade, mais cedo ou mais tarde você se defronta com verdades inconvenientes (nenhuma referência ao filme…) da nossa sociedade consumista. Agora vai explicar o que é aterro pro menino, vai!?

Mas fujo do ponto. Voltando pra imaginação e pras brincadeiras podemos citar vários estudiosos* que defendem essa abordagem mais “contra a maré” de educar as crianças. Não vamos entulhá-las de brinquedos, vamos oferecer materiais mais rústicos, mais crus, menos elaborados para que a criança tenha a oportunidade de participar da brincadeira ativamente. Para que a criança possa interagir com o brinquedo e com o mundo por todos os sentidos não só apertando um botão. Vamos deixar as crianças pensarem e criarem o mundo que elas quiserem, pois é muito libertador ter uma folha em branco na nossa frente. Criança nenhuma tem medo de uma folha em branco. Nós adultos aprendemos que tudo o que nós fazemos é observado por outros e julgado, no mínimo é julgado por nós mesmos. E normalmente esse juiz não é bonzinho. Então uma folha em branco pra nós pode dar medo, pode nos paralisar por não sabermos o que fazer, por nos confrontar com nossa incapacidade criativa, nossa inadequabilidade artística e nossa inutilidade congênita pra dobrar um aviãozinho de papel… quiçá desenhar uma flor…

Criança não tem disso. Criança não tem medo. A gente não nasce com medo. A gente aprende a ter medo. Criança é livre. Criança pode ser o que ela quiser ser, pode desenhar o que ela quiser desenhar, pode fazer uma bolinha de papel e virar o Mike Tyson, pode dobrar a folha no meio e dizer que é um avião sim senhor, e ai de você se disser que não é. A imaginação da criança é uma coisa linda de Deus! Confrontada por uma folha em branco a criança nem titubeia em pegar um giz e sair riscando o que ela estiver pensando naquele momento. Não tem regras. Não tem certo e errado. E enquanto nós adultos achamos o máximo colorir dentro das linhas porque nossa chance de fazer merda num livro desses é bem pequena, as crianças quando tem um desenho impresso na frente delas saem desenhando independente do que já está desenhado ali. O que pra gente parece um “pintar fora das linhas” pra ela é pura criação. E quanto mais velha a criança mais ela pinta dentro das linhas. Mais ela se enquadra. Mais ela obedece. Menos ela pensa.

Como tudo na vida é claro que há o lado positivo de desenhar dentro das linhas. O desenvolvimento da coordenação motora fina, o auto controle e até a própria obediência são coisas muito desejáveis em crianças sim. Não quero ser advogado do diabo e mandar queimar todos os livros de colorir infantis junto com todos os brinquedos eletrônicos.

Minha rixa é com o excesso. Tudo demais é demais. E hoje em dia eu vejo bem menos vaquinhas feitas com manga e palitinhos nas fotos dos pais orgulhosos do facebook do que brinquedinhos de plástico da Ri Happy.

Então minha reflexão de hoje é essa: quando foi a última vez que seu filho brincou sem brinquedos? Quando foi a última vez que ele ficou entediado, sem ter o que fazer (o tédio é um grande amigo da criatividade)? Que tal guardar a próxima caixa de ovos vazia que sobrar aí na sua casa e dar na mão do menino numa tarde de sábado pra ver o que sai? Quem sabe vocês farão um berçário de bonecas, ou um ônibus espacial, ou um casco de tartaruga, ou

 

*Pra saber mais:

Murilo Gun

Escolas Waldorf

Maria Montessori

“Nosso mais alto empenho deve ser o de desenvolver seres humanos capazes de, por eles próprios, dar sentido e direção às suas vidas.”

Rudolf Steiner