Como é difícil parir

Trazer seu filho ao mundo. Dar à luz. Essa expressão é muito usada e acho que as pessoas não pensam bem em uma letrinha escondida aí que faz toda a diferença… o “a” preposição, que gera a crase (desculpa, sou nerd…) significa que você dá o seu filho PARA a luz, você não dá luz pro seu filho, não é você quem ilumina a vida dele porque você é uma mãe maravilhosa e melhor que todas as outras da face da terra! (sim, você é importante, não me entenda mal..) mas meu ponto aqui é que desde o parto nós damos Luz pros nossos filhos, nos damos o mundo, nós damos a vida (com todas as suas delícias e dores) para eles.

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É uma incongruência portanto pensar que nossos filhos serão nossos pra sempre… pensar que podemos abraçá-los e protegê-los de todo mal! Quanto mais eles crescem mais é difícil conseguir puxar um aqui pra dar um beijo na bochecha… quiçá um abraço apertado, um colo demorado, um cafuné… eles querem correr pro mundo, pro balde de brinquedos, subir a escada sozinhos e não querem ficar no colo muito tempo não!

Bem que minha mãe avisou, que era pra eu aproveitar a fase de recém nascido, que passa logo, que os meninos crescem rápido… e eu doida pra eles crescerem logo e comerem sozinhos, pra eu também poder comer sozinha… doida pra eles darem os primeiros passos, pra eu poder caminhar com os braços livres… e agora me vejo com saudade. E com apego. Não quero deixar ir. Estou criando pássaros lindos cheios de idéias na cabeça do que será a sensação de voar… e me vejo com medo de abrir a gaiola, de deixá-los pular do ninho. Com medo de parir, de deixar partir.

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Desde o nascimento há um parto. Do verbo partir mesmo. Há uma ruptura que é tão doída na mãe quanto é maravilhosa no filho.

Eis que depois de três filhos me vejo com medo do parto novamente, como quando eu estava grávida do primeiro e não sabia o que era a dor de um parto. A gente quer e não quer. É muito doido.

Não quero que eles se machuquem, embora saiba que é importante tolerar as lagartas para ver as borboletas. Não quero que eles sofram preconceitos, que vejam as atrocidades do mundo e, como eu, fiquem desesperados, sem esperança na humanidade, mesmo que só por um momento. Embora saiba que é vendo as injustiças que eles criarão força para lutar por justiça! Sei que estou fazendo a minha parte para criar cidadãos conscientes, que comem verduras e reciclam seu lixo. Seres humanos completos, que sabem amar. Estou me esforçando, juro. Mas no final do dia a decisão tem que ser deles. A escolha tem que ser deles. A vida tem que ser deles.

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Lembro da minha felicidade e do orgulho que senti em cada conquista na minha própria caminhada. Quando fui pra escola, quando atravessei a rua, quando peguei um ônibus sozinha pela primeira vez… quando fui pra faculdade… quando consegui meu primeiro emprego… momentos marcados de medo, ansiedade, frio na barriga e incertezas, mas esses sentimentos são a base da construção da minha auto-estima. Do “eu posso”, “eu consigo”, “eu quero”, “eu vou”. É do medo que surge a confiança, e olho para todos esses momentos hoje com muito orgulho de ter agido como agi, de ter enfrentado meus medos e formado quem eu sou.

Imagino o quanto cada momento desse deve ter sido doído na minha mãe. A gente olha as lágrimas nos olhos dos nossos pais ao nos ver formando, casando, conquistando algum grande marco. A gente acha meio bobo e não entende porque a criatura tá chorando num momento tão feliz da nossa vida!!! Ai que vergonha mãe, pára com isso…

Até que a gente vira mãe…

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Eu já posso imaginar os rios de lágrimas que vou chorar ao ver a primeira peça de escola, a lembrancinha de dia das mães, o colar de macarrão que vou ganhar no natal (ainda fazem disso?) e tantos outros marcos que ainda estão por vir… a saída de casa, o casamento, o primeiro neto…

Lágrimas de tristeza, de alegria, de orgulho, de medo, de serenidade… de tudo…

Nunca subestime as lágrimas de uma mãe. Nunca são lágrimas simples, nunca são por um motivo só.

Vou seguir o conselho de uma grande amiga e simplesmente sentir minha dor. Perceber o tamanho do meu amor e do meu apego, reconhecer o quanto eu fui parte na criação de um ser humano fantástico e ter orgulho disso, ao mesmo tempo em que reconheço que tem coisa ali que não fui eu quem fez, tem partes da personalidade e do desenvolvimento dos meus filhos que são só deles. São conquistas pessoais deles, são desafios que eles enfrentaram, às vezes simples como descer um degrau sozinha ou escrever a letra do nome. Mas eles se viraram, acharam um jeito e conseguiram. Vou olhar pros meus pedacinhos de gente com muito orgulho por eles serem quem eles são. E dar graças pela vida ser exatamente como é.