Sobre maridos e cachorros

Tô eu na rodinha dazamiga quando, inevitavelmente, aparece o assunto marido. E é reclamação pra cá, queixa pra lá, meias pela casa e tampas de vaso levantadas pra todo lado… até que alguém comenta:

-Marido dá trabalho mesmo hein? Afff

Comentei também, confesso. Reclamei… afinal, quem nunca? Mas depois fiquei pensando: gente, tem alguma coisa na vida que não dá trabalho?

There’s no free lunch!

Sério, nem peixinho dourado é isento de manutenção.

Ahh você quer chegar em casa e ter aquele golden retriever lindo, com cheirinho de pet shop, pulando de alegria pra te receber após um dia cansativo no escritório? Você até visualiza a cena do seu “eu” como deveria ser e não como é, brincando com o bichano num parque, fazendo carinho no seu longo pêlo, caminhando com ele trotando fiel ao seu lado, sem coleira! Ahh que vida linda!

Agora me explica porque essa cena da sua imaginação não é realidade?

Porque cachorro dá trabalho! E muito! Os lindos pêlos longos e loiros significam pêlos pelo sofá, pêlos pelos cantos da casa e pêlos loiros em todas as suas roupas, especialmente as pretas! Cachorro com cheirinho de pet shop implica dinheiro toda semana pra um pet shop, ou banho em casa, e quem já deu banho em cachorro ou em menino sabe que é água pra todo lado, você quase que lava o banheiro depois da tarefa!!! Um cachorro tamanho família implica um estômago tamanho família e a ida ao supermercado agora vai incluir sempre um saco daqueles gigantes de ração pra cachorro! Pode calcular também o veterinário, as vacinas, o hotel pra cachorro nas férias, e falar nisso, ele já é castrado? E por aí vai…

Ok, ok, entendi, é por isso que você não tem um Marley, mas quem sabe um chiuaua? Ou um gato? Ou até mesmo um peixinho dourado, já que tudo que você quer na vida é o amor e a atenção de um bichinho de estimação mas sem essa mão de obra toda que vem junto!

Quem é dog person e já teve um peixe beta quando criança sabe que além de lembrar de alimentar o coitado todo santo dia e lavar o aquário uma vez por semana você ainda se sente naquele remorso de não poder correr pelo parque com seu peixinho…

Pode ir pra periquito, hamster, porquinho da índia, iguana, tarântula… vai ser a mesma coisa!

Ou seja, não tem bicho de estimação que não dê trabalho! Não existe relacionamento que não dê trabalho! Não existe nada na vida que não dê trabalho!

No pain, no gain!

Tem um ótimo documentário no netflix sobre alimentação chamado cooked, em que o cara fala no final que ele não quer que as pessoas façam comida em casa pra cuidar da saúde, ou que comprem orgânicos pra cuidar do meio ambiente. Não. Ele simplesmente quer que as pessoas se apaixonem pela comida novamente, se apaixonem pelo ato de comer, que elas saibam apreciar uma comida realmente boa e gostosa. Naturalmente as pessoas vão comer mais em casa, comprar orgânicos, comer menos carne e mais salada, e vão acabar cuidando mais da saúde, etc etc… e isso dá mais trabalho sim, dá muito trabalho. Como tudo na vida. Mas o resultado final é delicioso! Literalmente!

Se você consegue perceber a diferença entre uma lasagna congelada e uma feijoada feita pela sua mãe, você sabe do que eu estou falando.

O esforço colocado na produção da parada é diretamente proporcional à gostosura que você colhe no resultado final. E isso vale pra tudo na vida. Vale pra feijoada. Vale pro cachorro. Ter um peixe beta dá muito menos trabalho do que um Marley (ô!) mas o peixe não vai te dar um abraço lambido no final do dia nem correr atrás da bolinha que você jogar! Entende?

Volta pro marido. Dá trabalho? Sim dá trabalho, claro que dá trabalho, mas não tem marido no mundo que não dê trabalho! Aposto que São José também não era fácil, e que Nossa Senhora passava metade do dia varrendo serragem da cozinha! Não dava pra reclamar da tampa do vaso levantada naquela época porque a casinha ficava até do lado de fora, mas com certeza tinha meias e túnicas largadas pelo chão no final do dia…

dá até pra imaginar Maria indo pra casa de Isabel pra deixar os meninos brincarem juntos e as duas sentando pra tomar um café e falando dos digníssimos! Afinal, quem nunca?

Mas aposto que o foco daquela conversa era um pouco diferente… elas davam graças a Deus por terem homens bons ao seu lado, por terem homens de Deus, como elas. Por Zacarias (marido de Isabel) ser tão justo e por José (marido de Maria) ser tão trabalhador. E tomando um cafezinho passavam horas a fio cantando louvores aos respectivos! Você consegue visualizar a cena? Muito parecida com nossos cafés de hoje em dia! Só precisamos mudar o foco! Quando a gente sentar cazamiga, vamos focar no positivo, vamos exaltar as qualidades, louvar as características boas dos nossos digníssimos! No começo pode exigir um pouco de esforço consciente, porque afinal ficamos muito condicionados à reclamação ano após ano… mas com o tempo isso vira um hábito, e com certeza seu relacionamento vai se beneficiar dessa pequena mudança!

Trabalho? Dá sim. Mas vale a pena? Ô!